Conto de Natal

 Conto de Natal

Natal. Época festiva e alegre. Os povos rejubilam, as pessoas cantam e sorriem. E não há espírito de Natal mais natalício que o Pai Natal. O anafado e bonacheirão velhote de barbas brancas encarna tudo o que o Natal tem de bom: sinos, canções saltitantes, prendas, doces e lautas refeições. Todos os anos salta o velhote lá do Pólo Norte e desce aos lares dos meninos bonzinhos e bem comportados para a distribuição anual do merecido prémio. É o momento da recompensa. Um ano inteiro de sacrifícios a arrumar o quarto, ser simpático para os avós e ter boas notas na escola, para finalmente receber o tão aguardado skate ou casa da Barbie.

Mas isso é para os meninos bonzinhos. Os meninos menos bons cuidam que escapam com apenas a ausência de prendas, mas o que eles não sabem nem sequer suspeitam, é que a par da tradição de alegria e recompensa, há outra, mais negra e menos agradável, da qual nem todos ouviram falar. A par da lenda do São Nicolau, há também…

A LENDA DA OVELHA SEM CABEÇA

Nos confins da Antártida, no fundo de uma gruta profunda do monte Erebus, vive uma ovelha sem cabeça. Vive só e amargurada, na escuridão quase total, sob um frio glacial antárctico, protegida por um velo espesso, um tosão impenetrável, aguardando a sua hora. E a sua hora chega uma vez por ano, na véspera de Natal, quando vai na sua trotineta puxada por sete pinguins mágicos à roda do mundo visitar as crianças para lhes dar a merecida recompensa. Mas a ovelha sem cabeça não dá apenas bombons e doces. A recompensa merecida não é sempre boa. Para os meninos bons, há o Pai Natal. Para aqueles que não foram bons, que fugiram aos seus deveres escolares, foram invejosos com os irmãos, desrespeitosos para os pais ou mal educados para os professores, há a ovelha sem cabeça. Vem com pezinhos de lã. Da lã que tira de si própria e enrola à volta das patas, para que não faça barulho. Desce a chaminé em silêncio, em passos sussurrantes, com um grande saco azul numa mão e a tesoura de tosquiar na outra e aproxima-se cuidadosamente dos meninos e meninas que dormem sem a esperança de ser acordados pelo Papai Noel. Com um sopro quente diz:

- Mééé!

E corta-lhes a cabeça com a tesoura de tosquiar. Depois guarda-as no saco azul, salta para a sua trotinete mágica e parte para a próxima casa. Ao fim da noite o saco azul está cheio de cabeças de meninos maus, na mesma proporção em que o saco do Pai Natal está vazio de presentes dos meninos bons. 

Ao fim da noite regressa a ovelha sem cabeça ao monte Erebus, e ali se entretém a experimentar as cabeças que recolheu ao redor do mundo. No lugar da cabeça que não tem experimenta sucessivamente as de meninos que disseram palavrões ou de meninas que levantaram falsos testemunhos ou mentiram sobre o que disseram as amigas.

De manhã, meninos do mundo inteiro acordam nervosos e trementes, e quando o pequeno Fábio ou o Tiaguinho se agarram com força inesperada á mãe ou ao pai que o vieram acordar, é surpresa destes as lágrimas e soluços matinais, e menor não é a surpresa quando os filhos lhes dizem com voz trémula:

- Mééé!

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