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Cariel,a pequena cerveja

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Cariel era uma pequena cerveja que vivia lá no fundo do bar. Era uma cervejazinha curiosa que vivia rodeada pelas suas seis irmãs, Cristal, Coral, Cergal, Corona, Carlsberg e Coors. De todas, Cariel era a única que pretendia viajar e ver o mundo, mas isso não era fácil, uma vez que a sua posição lá no fundo do bar não lhe permitia grandes viagens. Desde mini que o seu pai, o Rei Trintão, a tinha condenado a uma vida recatada, de confins das prateleiras, lá no fundo do bar, onde a luz nunca chegava. Apesar disso, a pequena cerveja aspirava a outros voos e espreitava a a superfície sempre que podia, de tal modo que o Rei Trintão lhe atribuiu um guarda costas para sempre a vigiar. E nada melhor para vigiar uma pequena cerveja inquisitiva do que uma lagosta, suada de tanto correr atrás dela. Por sorte, uma cervejinha era também bom acompanhamento para uma lagosta, pelo que não era difícil encontrá-las juntas, uma suada e rosada como uma lagosta, outra fresquinha como uma alface. E assim ac...

Notícia do dia

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   Aqui está a notícia do dia. Em grandes parangonas garrafais escarrapachada nos tablóides. Não tenho a certeza, mas sempre achei que as parangonas deviam ser garrafais e aparecer em tablóides. Não concebo uns sem os outros.    Apesar do título apelativo, julgo que o Francisco Pedro poderia ter dito “Adolescente morre em acidente de mota a caminho da escola”. Talvez não desse a impressão que ir à escola é uma actividade perigosa.    “Adolescente de mota morre em Ourém a caminho da escola” é outra possibilidade.    Talvez um género mais clássico: “Morre em Ourém adolescente de mota a caminho da escola”.    “Adolescente de Ourém morre a caminho da escola em acidente de mota”. Aqui o que é perigoso é ser de Ourém.    Talvez algo menos passivo, afinal é uma parangona: “Acidente em Ourém mata adolescente a caminho da escola de mota.”    A partir daqui tornamo-nos modernaços: “Acidente de adolescente mata de mota a caminho...

A ponte

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   Os pirilampos e assobios do Skoda criaram um vácuo na praça da portagem, que ainda há 30 segundos estava cheia. Nada infunde mais terror a um automobilista do que um carro da Brigada de Trânsito. Sem sequer abrandar na portagem, o carro precipitou-se para o tabuleiro da ponte e ainda antes do primeiro pilar bloqueou a faixa da direita. Ambos os guardas saíram precipitadamente e cercaram um indivíduo que seguia a pé pelo estreito corredor pedonal de emergência. Vestia uma camisola azul e umas calças de ganga, com uma chave de fendas e outra de boca enfiadas no bolso de trás, e não parecia sofrer de vertigens.    - O senhor não pode estar aqui. - disse um dos polícias - Faça favor entre na viatura e venha connosco.    - Porque é que não posso estar aqui? A ponte é minha, posso ir onde quiser.    - A ponte é sua? Que significa isso?    - Aquilo que acabei de dizer: a ponte é minha, posso estar onde quiser.    - A ponte não é su...

Karma

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    Nasceu azarado. A espinha bífida tirou-lhe desde sempre a mobilidade dos membros inferiores. Não conheceu outra realidade senão a da cadeira de rodas. Apesar disso era uma criança alegre, tinha amigos e brincava com eles, que o ajudavam nas suas dificuldades motoras e nunca o excluiram das suas brincadeiras. E foi numa dessas brincadeiras, já quando adolescente, que a cadeira se virou e o fez tombar, com tanto azar que fez uma fractura na cervical e perdeu nessa altura o uso dos membros superiores. Nem isso lhe fez perder o espírito. Enfrentou a contrariedade com o ânimo possível. Dizia graçolas, fazia piadas e continuou bem aceite pelos amigos. Tirava forças dos exemplos de Hellen Keller e Stephen Hawking, e continuou a levar a vida de forma mais positiva que muitas pessoas com a sorte de nunca terem sofrido agruras como as dele.     Só perdeu a vontade de viver quando ficou pentaplégico...

Mistério

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    Saíu nas notícias: um dos homens mais influentes da nossa praça é enigmático.     Imediatamente se levantaram vozes reclamantes:     - Não queremos aqui gente dessa - clamaram alguns.     - Eu sempre desconfiei disso, nunca me inspirou confiança - esclareceram outros.     - Por mim, aceito qualquer religião, desde que não venham para aqui com peditórios e outras coisas assim - concederam uns tantos.     - Coitado, um homem ainda novo... - lamentaram os mais sensíveis.     - Já o avô dele se metia nessas coisas - informaram os mais mais conhecedores.     E nem toda a influência do homem em causa foi suficiente para que se mantivesse influente na nossa praça. Juntaram-se os vendedores de sardinha com os dos ultracongelados, uniram-se os marisqueiros às vendedoras de legumes, aqueles que compravam na lota aliaram-se aos importadores do "peix de Barcelona", apresentaram uma queixa na capitania e fecharam-lhe...

Aljezur

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   Vivia numa terra tão pequena que até as depressões eram insignificantes. Ou seja, eram insignificantes aos olhos dos outros, porque para si era coisa de monta. Como a terra. Só os nativos lhe davam a importãncia que os transeuntes ocasionais objectivamente lhe negavam. Era apenas uma terreola. Insignificante. Mas mesmo as depressões das terreolas insignificantes causam grande mossa em quem as sofre, e esta levou ao suicídio. Ou à tentativa de suicídio.    Tentou atirar-se para debaixo do comboio, mas ali não havia caminho de ferro.    Atirou-se da ponte abaixo mas era tão baixinha que mal conseguiu torcer um tornozelo.    Tentou afogar-se no rio, mas a água era tão pouca que mal dava pela barriga dos patos.    Atirou-se para a frente de um camião, mas o trânsito era tão lento que todos pararam a tempo e nem um arranhão sofreu.    Tentou enforcar-se numa árvore, mas só encontrou figueiras cujos ramos dobraram até o depositar ...

Passeio no Parque

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   Confesso. Sou um fraco, sem vontade própria, curvado à vontade de outrem, um invertebrado, um flácido. Só assim se explica que me tenham convencido a ir às compras a uma superfície comercial. Poderia inventar uma justificação se tivesse frequentado um supermercado. Alguma coisa máscula e viril, como "fui comprar 3 grades de cerveja para beber antes do jantar" ou "acabou-se-me o tabaco de mascar" ou até "precisei de comprar uma pedra de amolar para afiar a minha faca-de-mato". Infelizmente o termo "superfície comercial", outrora tão abrangente que podia significar qualquer área onde se praticasse a nobre arte do comércio, refere-se hoje a estabelecimentos pimpões e elegantemente decorados, onde se vende de tudo, desde meias de seda para a perna da donzela mais delicada até tartarugas de estimação. De tudo, menos facas de mato e tabaco de mascar. E raramente grades de cerveja.    Pois foi a um desses estabelecimentos, nem supermercado nem centro...