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O trauma da pequena joana

   Flávia era uma linda joaninha. Mais ainda, era uma linda joaninha de 7 pintas, das mais comuns e ao mesmo tempo das mais lindas. Não caía no exagero das joaninhas de 12 pintas, essas vaidosas, nem no das de 2 pintas, essas desleixadas. Tinha 7 pintas e orgulhava-se, achava que tinha muita pinta. E as outras joaninhas também se achavam muito lindas. Tão lindas se achavam que andavam sempre bem brilhantes e ofuscantes, com as suas asas vermelhas com brilhantes pintas pretas. Outras cores não seriam aceitáveis, era absolutamente necessário conjugar bem as cores, e só o vermelho e o preto se adequavam. Nunca se tinha ouvido falar de uma joaninha amarela com pintas verdes, ou azul com pintas fucsia. Não seria correto. E as pintas também tinham que ser certas, círculos perfeitos e brilhantes. Nada de pintas ovais ou quadradas. Não seria correto. E assim andavam todas as joaninhas, sempre aprumadas e vistosas, vestidas à moda e muito serigaitas, sempre a esvoaçar de planta para pl...

O Pescado Mora ao Lado

  Silvina Silva não tinha culpa de ser uma bomba ruiva de formas voluptuosas. Um pouco como a Jessica Rabbit. Nem de atrair as atenções dos homens e a inveja das mulheres. Um pouco como a Marilyn Monroe. Mas Silvina tinha culpa de passar os dias na varanda do seu rés-do-chão a apanhar banhos de sol no Verão e a fazer step no Inverno, à vista de homens atentos e mulheres invejosas. No Verão com um bikini reduzido, no Inverno com um fato de licra roxo abundantemente transpirado. E foi assim que Silvina se tornou rapidamente uma das atracções da terra, que, como muitas outras terras pequenas, não tinha muito de atraente. A não ser Silvina Silva. Até já diziam que era um monumento. E foi assim que a rua onde morava SS passou a ser mais frequentada, como mais frequentada passou a ser a loja contígua ao subitamente conhecido apartamento térreo.    Era uma peixaria.   Naquela insignificante povoação do interior o consumo de peixe subiu subitamente, os níveis de ómega 3 disp...

Honest John

    Era uma vez um político honesto.     Ah, lá está ele na reinação, dirão aqueles que me conhecem. Político honesto é coisa que não existe, só pode ser piada. Mas não. É mesmo assim. Também sou capaz de relatos sérios. Então recomecemos mas sem preconceitos, está bem?     Era uma vez um político honesto. Vivia honestamente entre faunos, unicórnios, dragões e outros personagens reais na Terra do Nunca, onde exercia a sua profissão de político honesto rodeado dos seus honestos assessores e conselheiros, nenhum dos quais parente ou conhecido, e que não auferiam vencimentos superiores à sua competência, qualificações ou responsabilidades. A nenhum deles estava atribuído mais do que um motorista e dois automóveis, porque isso seria fantasioso e irrealista. E o político honesto era estimado por todos porque tinha sempre em conta o bem estar do povo e tudo fazia para que este vivesse em paz, harmonia e com boas condições de vida.     Um dia Satanás apa...

O pacato cidadão

   Severino Cássio é uma pessoa vulgar. Como eu, como os meus vizinhos, amigos, colegas de trabalho e milhões de outras pessoas por esse mundo fora. Não é rico nem pobre, não tem esqueletos no armário nem fetiches tenebrosos. É um vulgar chefe de família, com a sua esposa vulgar e os seus medianos 1,47 filhos que trata com regular cuidado e afeição. Almoça de pé num snack bar e tem um cão de porte médio que passeia depois do jantar quando vai despejar o lixo, além de jogar às cartas com os amigos aos sábados à tarde no clube desportivo onde é vogal da assembleia geral. Pessoa afável e bem disposta, que muitos respeitam e apreciam pela sua bonomia. Nem todos são apreciadores de bonomia e há quem gostasse de o ver destituído do seu cargo de vogal da assembleia geral, mas outra coisa não seria de esperar. Todos gostarem dele não seria normal, e Severino Cássio é uma pessoa vulgar. Tem um vulgar emprego de secretária numa seguradora onde trata de assuntos pouco interessantes e rec...

Mais Literatura Infantil

A Espada Mágica Há muitos, muitos anos vivia num reino distante um corajoso cavaleiro chamado Girimeu. O cavaleiro levava uma vida pacata, caçava veados, lebres, javalis, raposas, salvava donzelas em perigo e matava dragões. Certo dia, Girimeu foi procurado pelo feiticeiro negro para resolver um problema: descobrir uma espada mágica que estava num país luminoso e que tanta falta fazia aos habitantes do reino. É que este reino era aterrorizado por um malvado e perigoso dragão, que comia ovelhas e roubava criancinhas, enquanto que o seu bafo abrasador consumia as colheitas e torrava árvores de fruto e gado. E de tal sorte era esta peste, que até o feiticeiro, negro como era, por dentro e por fora, concordou em ajudar o cavaleiro e o povo com o seu conhecimento. E era de seu conhecimento que este dragão só poderia ser morto com uma espada mágica. - Partirei logo ao amanhecer. - disse com entusiasmo Girimeu. - Ide, mas tende cuidado, pois os perigos são muitos. – alertou o feiticeiro. Mal ...

I Found Jesus

  É verdade. Eu encontrei Jesus.   Estava a jogar flippers no Centro Comercial Palladium, nos Restauradores. Naquela casa de jogos lá ao fundo, sabem? Ao princípio não o reconheci, porque trazia uma t-shirt dos Jesus & Mary Chain, e pareceu-me foleiro que Jesus tivesse uma t-shirt com o seu próprio nome, mas fiquei ali ao lado da máquina a vê-lo jogar por um bocado, e convenci-me que era mesmo ele. Estava com o Super-Homem. Esse foi mais fácil de reconhecer, porque estava fardado. Ao princípio também não acreditei, porque me pareceu estranho que o Superman fosse jogar flippers vestido de Super-Homem. Pensei que fosse mais um maluco a imitar um super-herói, mas quando olhei para ele vi que tinha postos os óculos do Clark Kent. A Momentary Lapse of Reason, achei eu, mas ele viu-me a olhar com ar intrigado e disse-me com maus modos que já não via tão bem como antigamente, e que precisava deles, não para ler, ou ver televisão, mas para jogar flippers. Parece que dantes o sol a...

Realmente...

Era uma vez um rei. Não um desses reis de faz-de-conta, das histórias de princesas e dragões. Era um rei real, e realmente régio, coroado e entronado, de espada na mão e ceptro ao colo, como convém a monarca de estirpe afamada e pedigree registado. Filho de rei, sobrinho de conde e primo de duquesa. Um rei à séria, enfim, que tinha tudo menos um reino.  Conta a história e reza a lenda (que às vezes coincidem) que este rei fora outrora influente e estimado, mas que caíra em desgraça devido a intrigas e más línguas. Poder-se-ia pensar que sendo um rei tão régio não estaria sujeito a sufrágios da vox populi e reinaria apenas por direito divino, sem ter que prestar contas mundanas, mas eu já tinha dito que era um rei real, e na realidade a realeza também sofre realmente as agruras do povo, tanto mais que é o SEU povo, que ela tanto preza e estima como se fosse realmente seu. Foi então o nosso rei destronado, o seu reino parcelado e arrendado barato a investidores estrangeiros e o seu t...